vamos lá falar d'a rede

era uma vez, algures em 2012
nota prévia: esta história tem sete anos. SETE. nesta altura éramos todos muito "novos" nestas coisas do facebook. mas não éramos novos nas redes sociais: já tínhamos passado pelo mirc, pelo windows messenger, pelo hi5, pelo netjovens, pelos blogs e tantas outras. conhecer alguém através da internet não era novidade para muitos de nós que criam e alimentam uma presença numa rede social.
o acidente, a doença, a compaixão, os encontros adiados, a morte
a história ganha consistência pois além da pessoa Sofia Costa que pede amizade a Nuno Ramos de forma acidental (estava só à procura de alguém com o mesmo nome) há uma mãe, uma irmã, uma amiga e o seu marido e um amigo. há perfis criados, há comportamentos na rede social que dão credibilidade a cada uma das pessoas. há uma Sofia e as pessoas à sua volta a validar isto ou aquilo.
há acidente e uma doença que provoca compaixão. pelo meio, falecem pessoas que não existiam (o pai de Sofia), a própria Sofia e a sua melhor amiga.
os encontros com a Sofia e depois com os familiares foram sempre adiados. podemos, agora, achar estranho que um indíviduo como o Nuno Ramos não questionasse as desculpas para adiar encontros. ao ver a reportagem damo-nos conta que a história estava bem "montada" e envolvia várias pessoas que, tal como o Nuno, acreditavam na existência de uma pessoa, com família, com uma doença como o cancro. tudo parecia natural: as ausências para os tratamentos, as reacções aos tratamentos - as dela e as da família-que-não-existia.
mas como é possível ter uma relação à distância com alguém que não se conhece?
o romantismo de outros tempos, que acontecia via carta ou via telefone, acontece agora com "morada" nas redes sociais. o facebook, lembro, é apenas uma delas. há outras. umas até têm como propósito os encontros (tinder).
quando a história é bem contada e tem suportes é natural que acreditemos. afinal, que motivos temos para desconfiar? sobretudo quando baixamos a guarda e aceitamos "amizade" de toda a gente no facebook, quer conheçamos quer não. hey, eu também faço isso e não me considero uma pessoa ignorante no que respeita às redes sociais. e sublinho: "baixamos a guarda" nesses casos, pois estamos a permitir que alguém, cujas intenções e cujo contexto desconhecemos, entre na nossa vida e tenha acesso a informações nossas. é um risco que corremos, não haja dúvida. um risco que se torna comum, tal como atravessamos a estrada à corrida, quando o sinal até estava vermelho para nós: na maioria das vezes, se não vem nenhum carro, não há problema. não deixa é de ser um risco.
e não estamos a falar de uma brincadeira levada a cabo por miúdos
a responsável pela história é uma mulher com mais de 40 anos, divorciada, mãe e professora no ensino básico. acrescento: com muito tempo livre. para quem trabalha em redes sociais, sabemos perfeitamente o tempo que consome alimentar um perfil de uma marca, para o tornar autêntico e próximo das pessoas. agora imaginem esta senhora que criou cerca de sete perfis na rede social facebook, perfis que tinham o comportamento de qualquer pessoa como eu ou tu, que estás aí a ler esta publicação... esta senhora devia abandonar o ensino e dedicar-te ao marketing, à criação de personas #ironyAlert
o desfecho na justiça
a responsável da história é levada a tribunal pela pessoa enganada (o Nuno) e a pessoa cuja imagem foi usada de forma abusiva (a Cláudia). e há lugar a um pedido de desculpas, meia dúzia de trocos para compensação dos danos (que foram entregues à Santa Casa). isso também é assustador, pensar que a lei não tem uma acção mais dura com quem andou durante dois anos a usar imagem de outra pessoa, a enganar "meio mundo", construindo histórias credíveis, usando vários telemóveis, simulando vozes ao telefone.
acresce que essa senhora é professora do ensino básico. trabalha com crianças. que pessoa é ela em sala de aula? que valores transmite e defende diariamente? também diz ao seus alunos que "é feio mentir?".
fica aqui o 3º episódio d'a rede. vejam também os outros.
foto: facebook d'A Gaja
