«Thomas Kuhn à caixa central, por favor!»
Sempre achei que o Karl Popper e o Thomas Kuhn eram uma espécie de siameses separados à nascença. Quando estudei filosofia no secundário, estes autores apareciam-me sempre em dupla, qual Lennon & McCartney ou Simon & Garfunkel. Talvez eu precise de mudar de paradigma. Por incrível que pareça, Kuhn e Popper só se conheceram há coisa de dois anos, num baile aqui da aldeia. Nos santos populares, lembro-me bem. Aliás tenho dificuldade em esquecer a imagem do Kuhn e do Popper a beber sangria, a comer sardinha assada no pão e a falar de cisnes negros e revoluções científicas. Adiante.
Fui ao teatro com um amigo, o André, e encontrámos o Kuhn. Kuhn’catano, já não vamos ter descanso. Vem aí o homem das revoluções científicas, disse o André, ao avistar o Thomas. Kuhn tem todo o «ar de cientista», se m permitem dizê-lo. Testa ampla, óculos, sorriso e olhar inquiridor. E adora conversar. Ultimamente não tem tido descanso e ele explicou-nos o motivo.
Joana, têm sido tempos loucos. Com a crise instalada, toda a gente está constantemente a apelar à mudança de paradigma. E lá vou eu, qual patinadora do hipermercado, à corrida para aqui e para ali para fazer a minha consultoria... digamos, er..., paradigmática!
Consultoria paradigmática?, questionei. Joana, sabes que eu pratico o que defendo: tenho que me adaptar aos tempos que correm. Toda a gente fala de necessidade de mudança de paradigma, mas nem sequer sabem identificar qual é o paradigma vigente. É aí que eu entro.
E entras de patins, pela casa das pessoas adentro?, perguntou o André.
A gargalhada foi geral. A imagem do Kuhn a entrar pelas casas das pessoas, sempre que elas proferissem a palavra paradigma... «foi você que pediu um consultor paradigmático?» - DELICIOSO!
Deixámos os paradigmas de lado. Conversámos sobre a peça que tínhamos ido ver, sobre o que tínhamos jantado, sobre tudo menos ciência. Até que o telemóvel do Kuhn tocou.
Tenho que ir, Joana e André, tenho um cliente a precisar de esclarecimentos paradigmáticos! Falamos depois!, disse Kuhn.
Kuhn é um homem da ciência; diriam os estudiosos que está perfeitamente imbuído do contexto histórico-sociológico em que se insere. Além disso, é muito prático; é daqueles que chega à farmácia e pede um ben-u-ron e não perde tempo a dizer: é uma embalagem de para-acetil-aminofenol, se faz favor.
Já viste, André? O Kuhn, cheio de energia, a reinventar-se a si mesmo; até criou uma forma de consultoria adaptada aos dias de hoje. Quando pensavam que ele estava em fim de carreira, eis que surge a consultoria paradigmática. Quem diria?
O André, também ele um homem das ciências, respondeu-me, Joana, o Kuhn só leva a sério aquilo que defende: não há um fim para a ciência, há, sim, aproximações à verdade das coisas. E isso exige abandonar coisas velhas e adoptar coisas novas. Ainda vamos ver o Kuhn a entrar de patins pela nossa casa adentro. Escreve o que te digo, ele é homem para isso, se perceber que ir de carro não resulta ou não é suficientemente rápido!
Provando a minha teoria de que Kuhn e Popper são siameses, eu e o André terminámos a noite a falar de cisnes negros e de estatística. Quem me manda a mim ter por companhia homens da ciência?
