o local? o martim moniz, a praça central. havia noite de kizomba e eu arrastei o Marco comigo. fomos buscar uma cerveja, escolhemos um sítio para nos sentarmos e toca de pôr a conversa em dia. muita risada, boa disposição. ok, parvoíce à mistura.
uma senhora aproxima-se de nós. pede desculpas por estar a incomodar, foi muito educada: "desculpem e não me levem a mal, mas preciso muito de vos fazer uma pergunta. não me levem a mal, sim?"
e eis que surge a pergunta: "vocês têm ganza? é que estão tão bem dispostos que eu achei que podiam ter ganza..."
e nós rimos, ainda mais. "não, não temos."
a senhora voltou a pedir desculpas pelo incómodo e seguiu caminho.
"Marco, ouviste o mesmo que eu, certo?" perguntei.
a verdade é que não é preciso ganza para rir. a sério, não é. e não é uma imperial que provoca boa disposição. a verdade é que também não tardou muito para se sentir todo um cheiro a erva, naquela praça. sim, ao ar livre.
a minha vontade foi chamar a senhora e dizer-lhe: "não temos ganza, mas olhe que por aqui parece que basta respirar!"
depois de tantos anos a analisar relacionamentos, teresa descobriu que tudo se resumia a um beijo. já nao queria saber de como trataria os seus animais nem sequer os seus filhos, cozinhar já ela sabia fazer e sobre os filmes já tinham chegado a acordo de que não adormeceriam a meio; ao fim do dia, o que interessava era o beijo. queria saber se era demasiado intrusivo ou se, pelo contrário, lhe deixasse espaço para ela própria descobrir o sabor da língua dele. se era demasiado húmido nos cantos ou se a humedecesse completamente sem que desse conta, se fazia parte do pacote "vou te foder" ou se era um doce sempre apetecido a qualquer hora do dia. depois de tantas experiências, o tempo morto entre o tocar a campainha e os sogros abrirem, aquele espaco entre o elevador chegar ao andar pretendido, era ali que entrava o beijo, a cumplicidade dos sabores comuns, o toque que salva e separa tanta gente. descobriu que o mais importante era mesmo o beijo, a junção dos lábios e língua com os olhos fechados e a porta aberta para novas sensações. que se lixe os cães e os miúdos que para isso está cá ela, o beijo, o prazer de ter alguém a tocar-lhe na entrada da alma, era isso que ela queria. e nao descansou até conseguir encontrar alguém que se encaixasse nela.