sabem o q fazem duas pessoas de bom gosto, que compraram um twingo violeta, quando se cruzam na estrada?
agem de forma histérica e acenam uma à outra.
assim que avistei um "mano" do meu ornatos violeta, dei um grito histérico. "oh não! é igual!". ri-me muito. nunca me tinha acontecido isto de me cruzar com outro carro igual ao meu (já tinha visto alguns estacionados, mas poucos, confesso).
a senhora que ia dentro do carro riu-se muito e disse-me adeus, como se fossemos velhas conhecidas e não nos víssemos há muito tempo.
a chegar num cruzamento, carro da frente pára. eu assim fiz. carro começa a andar e eu assim fiz. mas o carro parou - e eu também, mas um pouco em cima dele, vá.
saí do carro a pedir imensas desculpas: já me bateram duas vezes por trás e o susto é gigante, pelo estrondo e pela sensação de não saber o que está a acontecer.
o carro do condutor ficou com um vinco de 4 cm, saltou um bocadinho de tinta e a tampa da luz de matrícula partiu. de resto tudo ok. foi mesmo só um encosto (se a zona não fosse a descer, creio que nem lhe teria tocado).
bom, toca a preencher a declaração amigável. os seguros existem para estas ocasiões e há que assumir a responsabilidade do que aconteceu, sem grandes dramatismos da minha parte.
e claro que ninguém me olhou de soslaio pelo "à vontade com que preenchi a declaração amigável" ou "a carta de condução ainda é cor de rosa" ou "tantas tatuagens e toda vestido de preto".
eu sei que é aborrecido: os senhores vão ter que agendar peritagem e deixar o carro para arranjar. já me aconteceu o mesmo e lamentei-me, na altura. mas a definição de acidente passa por isso mesmo: é algo que não se espera, que não se planeia, que acontece. é lidar.
e pedir desculpas pelo sucedido, mesmo que do outro lado se oiça um "mas as desculpas não se pedem, evitam-se" - sim, o senhor reagiu mesmo assim. eu continuei de sorriso nos lábios a preencher a declaração e a pensar que a vida tem destas coisas e que quando há cocó, é apanhar e pronto.
na segunda feira parei num STOP - e o carro que vinha atrás de mim também parou, mas na minha traseira. salvo seja, na do ornatos violeta.
e pronto, lá saímos do carro para ver os danos. "pensava que a senhora não ia parar", disse-me o senhor. "pois, mas temos stop e este cruzamento é sempre muito chato, passo aqui todos os dias", respondi-lhe.
declarações amigáveis, documentos, croqui, ah não sabemos o nome da rua, vamos ver na net e depois preenchemos. nesse dia deixei os telemóveis em casa.
foi tudo muito rápido: o acidente aconteceu pelas 16h10 e pouco passava das 16h30 e eu já estava na escola. uma colega passou por mim e informou os alunos que talvez eu chegasse atrasada.
e depois?
marcar peritagem, levar carro para a oficina, ver horários do bus, organizar com o mano para eu ficar com o carro dele. ligam da oficina: peritagem feita, venha buscar o carro, fica condicional e quando tivermos ok da companhia agendamos a reparação.
combinar para ir buscar o carro: levo o twingo do mano, deixo estacionado perto da oficina, pego o ornatos, vou dar a aula, vou buscar o mano e vamos buscar o twingo dele.
são coisas que acontecem, sim. mas lá que perturbam e consomem tempo e dinheiro... a única coisa fixe é poder andar com um twingo limpo e arrumado - ao contrário do meu que vai para dois anos que não vê uma lavagem.
"então, joana, tudo bem?" - perguntou o vizinho quando me viu chegar.
pensei em responder: nem por isso. tenho a tiróide lenta, bateram-me no carro e o félix teve que ir fazer uma visita inesperada ao veterinário. já paguei a segurança social do mês passado, mas ainda estou à espera de um pagamento de um RV de dezembro de 2015.
pensei. mas disse só: tudo bem, obrigada! está frio, hein? até amanhã!
é a maior mentira do mundo. quem pergunta não quer realmente saber e quem responde raramente diz a verdade.
e a (minha) verdade é que isto de sobreviver é mesmo assim: uns dias bons, outros menos bons. faço o melhor que posso - até porque não consigo fazer melhor. humana, demasiado humana.
uma 'ssoa vai pela vila fora, no seu carro discreto e violeta quando ouve gritos do outro lado da estrada: - olhá professora de filosofia! olhá professora de filosofia!
é claro que uma 'ssoa abre o vidro e esbraceja como se não houvesse amanhã.
o D. pergunta, sempre que me vê a chegar ao recreio: "é hoje que vais trabalhar connosco?". roubo-lhe um sorriso sempre que digo que sim.