«O meu futuro namorado ouve as músicas que lhe envio, gosta de Nietzsche, não se importa de conduzir o meu carro violeta, usa um Mac, leva-me ao cinema e ao teatro, entende quando quero ir a concertos sozinha, lê-me crónicas do Lobo Antunes, conhece todos os recantos da minha alma, faz-me perguntas pertinentes, deixa-me a pensar, pede-me para abrir o tinto que vai acompanhar o jantar, cozinha para mim, sai comigo para me ver dançar, planeia viagens surpresa, sabe que não gosto que me mexam no cabelo, acredita em unicórnios, mira-me enquanto durmo, detesta as manhãs, respeita o meu mau humor matinal, escreve maravilhosamente, usa barba, sabe dar palmadas, beija divinamente, adora as minhas curvas, admira-me com orgulho e deixa-se admirar por mim, adapta-se a mim e eu e a ele, sabe pôr-me no meu lugar, tem sentido de humor e não é perfeito. É isso.»
emociona mais, faz-nos dizer mais coisas, arranjar justificações. imaginamos como seria estar no lugar do outro. e depois é tudo muito bonito, mesmo com finais realistas ao jeito do la la land. mesmo que as personagens principais não fiquem felizes para sempre - juntas, ambas as duas. é sempre mais bonito, mesmo quando na história há uma vilã que rouba o coração a alguém que já não o tinha, por o ter entregue a outra pessoa. mesmo assim "ai eu não era capaz", "ai que falta de isto e daquilo". mas também é bonito, por que estamos do lado de fora e sentimos alguma inveja da adrenalina inerente à prática do assalto do coração alheio.
é sempre mais bonito do lado de fora.
a questão é que agora há que viver no lado de dentro.
o local? o martim moniz, a praça central. havia noite de kizomba e eu arrastei o Marco comigo. fomos buscar uma cerveja, escolhemos um sítio para nos sentarmos e toca de pôr a conversa em dia. muita risada, boa disposição. ok, parvoíce à mistura.
uma senhora aproxima-se de nós. pede desculpas por estar a incomodar, foi muito educada: "desculpem e não me levem a mal, mas preciso muito de vos fazer uma pergunta. não me levem a mal, sim?"
e eis que surge a pergunta: "vocês têm ganza? é que estão tão bem dispostos que eu achei que podiam ter ganza..."
e nós rimos, ainda mais. "não, não temos."
a senhora voltou a pedir desculpas pelo incómodo e seguiu caminho.
"Marco, ouviste o mesmo que eu, certo?" perguntei.
a verdade é que não é preciso ganza para rir. a sério, não é. e não é uma imperial que provoca boa disposição. a verdade é que também não tardou muito para se sentir todo um cheiro a erva, naquela praça. sim, ao ar livre.
a minha vontade foi chamar a senhora e dizer-lhe: "não temos ganza, mas olhe que por aqui parece que basta respirar!"