- A questão é saber se chegas a ter consciência disso. Ou se achas natural.
- Acho natural o quê? – perguntou ele.
- Pronto. – disse ela – Já percebi que não tens consciência.
- Mas consciência do quê? – insistiu nele.
Ela sacou de um cigarro. Negro, com cheiro a baunilha. Nem se percebia bem que era um cigarro, dada a ausência do cheiro a tabaco.
- Não gosto nada de ter que te explicar isto. És um falso. Apregoas aos sete ventos uma coisa que não és. Ainda não percebi se te queres proteger ou se isso é uma forma de ataque.
Ele olhou-a. Sentia-se transparente.
- E não olhes para mim assim. Nem imaginas como me custa ter-te aqui e dizer-te isto na cara. Custa-me tanto saber que és outro. Nem imaginas como isso me chega a irritar. E afasta-me de ti. Só penso em formas de estar longe de ti. Mil e uma ginásticas.
O cigarro estava a chegar ao fim. Era tarde e a alma – que pesava toneladas - pedia descanso. A dela. Já a dele pairava algures naquele quarto a tentar compreender o sentido daquilo que tinha ouvido.
Era (cada vez mais) tarde. Ela puxou o cobertor e o lençol. Apagou a luz. Ele permaneceu sem resposta, com o olhar fixo na escuridão, que era o reflexo da sua própria falta de luz.
Ele sempre teve uma má relação com as palavras. Por um lado, faz delas o seu trabalho, o seu modo de vida. Por outro lado, sente-se aprisionado pelos conceitos. Chamemos-lhe uma típica relação de amor ódio. A relação onde os opostos são vividos com a mesma intensidade e o mesmo querer. Diz-se por aí que os opostos se atraem. Diz-se, também, que no limite os opostos são um e o mesmo. Diz-se – com palavras! «Sempre as palavras», pensa ele. «Porque não posso dizer com o olhar, com o tocar, com o cheirar...? Porque não tomar a ambiguidade do silêncio como forma privilegiada de comunicar?» «Precisamente porque é ambíguo», digo-lhe. «Como é que tens a certeza que a pessoa te vai compreender? Já com as palavras é o que é… múltiplos sentidos, múltiplas formas de se dizer o mesmo…» Procurou o tabaco nos bolsos; qual metafísico que se preze, os cigarros são uma das suas companhias preferidas. Acendeu o cigarro. Focou a sua atenção na parede da esplanada. «Estão em todo o lado», disse. «O quê?», perguntei enquanto me virava para trás. «Ah, as palavras.» A parede tinha uma série de pratos expostos, com palavras inscritas. Parecia não haver ordem na escolha. Não faziam sentido. «Parece que vais ter que te reconciliar com as palavras. Mais tarde, ou mais cedo.» «Que seja mais tarde, então.», respondeu-me. Pedi mais um café. A conversa ia ser longa. E silenciosa.
mas "afinal havia outro" - ou melhor, passou a haver. o outro é a que chega depois, certo? pronto. ela e o outro começam a curtir uma cena que não existe (não pode existir, será?).
ele começa a ler coisas sobre "a monogamia é um mito" e a evitar a todo o custo fazer planos a três, perdão, a dois. ela sonha. ele tem os pés na terra.
na rua, vê este coração desenhado num caixote do lixo. o amor não se deve desperdiçar assim, pensa. pensa, sente. sabe.
olha para o relógio e aguarda. espera. desespera. alcança - a ideia de que o tempo demora tempo demais a passar.
hesita. há um passo na dança que é assim: hesita. é um vai não vai, um está que não está. um é que não é.
é nada, sejamos sinceros.
e isto mói a alma. sufoca o coração. "o timing certo", diz ela.
ele só pensa nas feridas que ainda estão para sarar. e olha para o coração desenhado no caixote do lixo. hesita.
olhar e palavras de Joana Sousa
a publicar em olharapalavra.com (assim que reencontre as coordenadas de acesso ao wordpress, sim?)
Uma vez, um amigo meu perguntou a um fotógrafo que inaugurava uma exposição numa bienal qualquer em Berlim que máquina é que ele usava. O fotógrafo olhou-o calmamente e respondeu “uso daquelas que têm um botão para fotografar” e virou costas.
Prefiro olhar para esta história como uma oportunidade para aprender alguma coisa do que um motivo para debater a arrogância do artista. A fotografia é mais do que megapixels, pontos de focagem ou lentes de vidro de baixa dispersão. É uma forma de interpretação do mundo, um acesso ao outro, uma possibilidade metafórica de nos dar conhecer outra realidade, um meio de divulgar, chamar a atenção, denunciar uma situação. Existem dezenas de possibilidades. A técnica importa, mas o conteúdo é essencial.
Paremos com os teasers e passemos à prática.
Duas vezes por semana, aos Sábados e 4ª feira, colocarei aqui um desafio fotográfico. Um tema, uma sugestão, uma missão mais elaborada. Pode ser fotografar uma pessoa, uma sensação, uma palavra, um aroma. Cada tema só será conhecido no próprio dia.
Não interessa o que usam para fotografar, interessa a fotografia e a história que vos levou até lá. Podem contar as dificuldades que tiveram, as surpresas, o que vos aconteceu, como ficaram depois da experiência, em que pensaram. Pode ser apenas uma frase que tenham retido numa conversa. Pode ser o silêncio.
A participação será feita nos seguintes moldes:
1º O desafio é lançado às 10h de cada Sábado e 4ª feira
2º Até ao lançamento do desafio seguinte, poderão publicar as fotografias aqui na página, com a vossa descrição da experiência. Juntem a hastag #iSeeThisou #icdz
3º Reunirei em álbuns, uma para cada desafio, todas as fotografias recebidas, para mais fácil consulta e debate.
Está lançada a ideia. Aceitam o desafio?
Partilhem, convidem amigos, tragam a família. Vamos lá ver até onde conseguimos ir!
ficamos no lado de cá da passadeira, à espera que o sinal mude. vemos que os outros atravessam sem olhar, uma vezes corre bem, outras vezes nem por isso. mas ficamos desconfiados. preferimos esperar. há-de chegar a altura, o momento. e nós vamos saber. a luz vai ficar verde, certo? então esperamos. confortavelmente, do lado de cá. a luz vai ficar verde e nós, nós vamos saber.
dás-me a mão?
um trabalho com carimbo olhar a palavra, para ler (também) AQUI