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all about little lady bug

ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

all about little lady bug

ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

A minha vida é um intervalo entre o ser e o nada: inclui golfinhos ao pôr do sol

Viviam-se dias tristes na aldeia. A Sra. Joaquina, a dona do café central, tinha perdido o sorriso e a vontade de conversar. A minha Susana está muito doente, contou-nos. Eu e o Sartre não sabíamos o que dizer. Temia-se o pior. E era impossível ficar indiferente  ao olhar triste da Sra. Joaquina, ela que tinha sempre um sorriso aberto e meia dúzia de palavras no bolso da bata para trocar com quem por lá aparecesse. Aqui na aldeia, ir ao café significa muito mais do que simplesmente repôr os níveis de cafeína; significa um momento de encontro e de diálogo, com os outros vizinhos e sobretudo com a Sra. Joaquina.

Ai menina ando aqui de coração muito apertado, tão aflita, acrescentou. Eu olho ali para o livro do Sr. João Paulo [é assim que a Joaquina trata o Jean Paul Sartre] e só vejo o nada. O ser deixou de fazer sentido para mim.

Peguei no telefone e disse, Joaquina, vou pedir-lhe uma oportunidade para lhe restaurarmos a fé no ser, ok? Ela ficou muito espantada a olhar para mim. Deixe-me só fazer uma chamada.

Desliguei e disse-lhe, amanhã às 15h venho buscá-la, com a minha amiga Sophia. Não se preocupe com o café, o Sartre e a Simone dão um olho nisto, certo? Sartre respondeu com um Oui assertivo e imediato.

Quando alguém está a sofrer desta forma, na primeira pessoa ou por alguém que lhe é próximo, as palavras são poucas, curtas e ocas. É difícil dizer algo que consiga pôr de pé um corpo caído por não poder aliviar a dor do outro. Ou a nossa. A Sophia tinha-me ligado há uns dias para partilhar algo que classificou de único e maravilhoso. Joana, nem imaginas, estávamos a passear de barco, ao pôr do sol e os malandros apareceram aos pares. Nem sei quantos eram. A desafiar-nos para brincar. Uma maravilha. Golfinhos, Sophia? Sim, Joana, foi um daqueles momentos que apetece guardar para recuperar nos dias menos bons, sabes?

Sei, Sophia, e é por isso que decidi levar lá a Joaquina.

À hora marcada lá fomos nós, até ao porto. Nunca andei de barco, menina, disse-me a Joaquina, meio assustada.  Vai ser o seu baptismo de mar alto, já viu, respondi.

Fruto de uma qualquer conjugação cósmica, ao pôr do sol a história repetiu-se: os golfinhos apareceram mesmo. Dois, quatro, seis. Seriam dez? Doze? Não sei. Mas foi maravilhoso. Ficámos as três a olhar para eles, estendemos a mão para lhes tocar. E a Joaquina sorriu de novo. Afundámos o nada que lhe tinha invadido o espírito, por momentos. Também por momentos tudo voltou a fazer sentido. Tocámos a paz de espírito, pelo menos, estendemos a mão na sua direcção.

Voltámos para a aldeia em silêncio. De alma lavada. Encontrámos o café num brinco: o Sartre e a Simone deram conta do recado como ninguém.

Todos temos  de poder escolher a vida em todas as circunstâncias. A Sra Joaquina também, não se esqueça disso, disse-lhe Sartre, ao despedir-se.

Aqueles golfinhos não sabem, mas naquele dia tiveram o poder de nos fazer escolher a vida, mesmo quando esta não nos sorri. 

Entre o ser e o nada, escolho a imagem dos golfinhos, no mar, ao pôr do sol.

«Thomas Kuhn à caixa central, por favor!»

Sempre achei que o Karl Popper e o Thomas Kuhn eram uma espécie de siameses separados à nascença. Quando estudei filosofia no secundário, estes autores apareciam-me sempre em dupla, qual Lennon & McCartney ou Simon & Garfunkel. Talvez eu precise de mudar de paradigma. Por incrível que pareça, Kuhn e Popper só se conheceram há coisa de dois anos, num baile aqui da aldeia.  Nos santos populares, lembro-me bem. Aliás tenho dificuldade em esquecer a imagem do Kuhn e do Popper a beber sangria, a comer sardinha assada no pão e a falar de cisnes negros e revoluções científicas. Adiante.

Fui ao teatro com um amigo, o André, e encontrámos o Kuhn. Kuhn’catano, já não vamos ter descanso. Vem aí o homem das revoluções científicas, disse o André, ao avistar o Thomas. Kuhn tem todo o «ar de cientista», se m permitem dizê-lo. Testa ampla, óculos, sorriso e olhar inquiridor. E adora conversar. Ultimamente não tem tido descanso e ele explicou-nos o motivo.

Joana, têm sido tempos loucos. Com a crise instalada, toda a gente está constantemente a apelar à mudança de paradigma. E lá vou eu, qual patinadora do hipermercado, à corrida para aqui e para ali para fazer a minha consultoria... digamos, er..., paradigmática!

Consultoria paradigmática?, questionei. Joana, sabes que eu pratico o que defendo: tenho que me adaptar aos tempos que correm. Toda a gente fala de necessidade de mudança de paradigma, mas nem sequer sabem identificar qual é o paradigma vigente. É aí que eu entro.

E entras de patins, pela casa das pessoas adentro?, perguntou o André.

A gargalhada foi geral. A imagem do Kuhn a entrar pelas casas das pessoas, sempre que elas proferissem a palavra paradigma... «foi você que pediu um consultor paradigmático?» - DELICIOSO!

Deixámos os paradigmas de lado. Conversámos sobre a peça que tínhamos ido ver, sobre o que tínhamos jantado, sobre tudo menos ciência. Até que o telemóvel do Kuhn tocou.

Tenho que ir, Joana e André, tenho um cliente a precisar de esclarecimentos paradigmáticos! Falamos depois!, disse Kuhn.

Kuhn é um homem da ciência; diriam os estudiosos que está perfeitamente imbuído do contexto histórico-sociológico em que se insere. Além disso, é muito prático; é daqueles que chega à farmácia e pede um ben-u-ron e não perde tempo a dizer: é uma embalagem de para-acetil-aminofenol, se faz favor.

Já viste, André? O Kuhn, cheio de energia,  a reinventar-se a si mesmo; até criou uma forma de consultoria adaptada aos dias de hoje. Quando pensavam que ele estava em fim de carreira, eis que surge a consultoria paradigmática. Quem diria?

O André, também ele um homem das ciências, respondeu-me, Joana, o Kuhn só leva a sério aquilo que defende: não há um fim para a ciência, há, sim, aproximações à verdade das coisas. E isso exige abandonar coisas velhas e adoptar coisas novas. Ainda vamos ver o Kuhn a entrar de patins pela nossa casa adentro. Escreve o que te digo, ele é homem para isso, se perceber que ir de carro não resulta ou não é suficientemente rápido!

Provando a minha teoria de que Kuhn e Popper são siameses, eu e o André terminámos a noite a falar de cisnes negros e de estatística. Quem me manda a mim ter por companhia homens da ciência?

Wittgenstein e os jogos de linguagem. Ah, e as palavras que nos deixam felizes. Pronto, é este o título.

Quando temos um filho é normal aguardarmos com ansiedade os momentos «primeiro»: o primeiro sorriso, o primeiro dente, o primeiro passo  e a primeira palavra. Será mamã? Será papá? Ou, simplesmente, «cocó»? O certo é que aquela palavra e o som da mesma vai ecoar nos nossos ouvidos de pais babados para todo o sempre.

 A primeira palavra. Depois disso, não descansamos até que lhe consigamos «arrancar» todas as palavras que existem do mundo. Inscrevemos a criança no inglês para que saiba as mesmas palavras noutra língua. Palavras, palavras, palavras. Porque queremos ter sempre algo a dizer, sobre tudo. Ou quase tudo.

 Há dias encontrei o Wittgenstein, no jardim da aldeia. Ele costuma juntar-se com uns amigos, para jogar às cartas. Mais tarde vim a perceber a importância do jogo para ele, quando estabeleceu uma analogia entre a linguagem e o jogo. Mas nesse dia em que o encontrei, Wittgenstein estava com um problema: tinha sido convidado para fazer um programa de rádio e não sabia se deveria aceitar. Era um trabalho a recibos verdes e não garantia muita estabilidade. E depois havia aquela história de ter que dizer coisas sobre coisa. O Ludwig estava mesmo preocupado.

Não te preocupes, disse-lhe, se houver alguma coisa sobre a qual não possas falar, remete-te ao silêncio. Este é uma coisa tão bonita e acho que até fica bem em rádio. Obriga-nos a parar para pensar, não achas? – Wittgenstein olhou para mim e agradeceu. Não lhe pus a vista em cima durante semanas. Ouvi-o um dia na rádio, numa espécie de performance silenciosa quando foi questionado sobre a polémica da carne de cavalo. «Acerca daquilo que não se pode falar, tem que se ficar em silêncio».

 A lição de Wittgenstein é simples, mas difícil de colocar em prática nos dias de hoje, quando, a toda a hora, somos convocados para dar opiniões sobre isto e aquilo. Era melhor e menos ruidoso se, de vez em quando, nos remetessemos ao silêncio. Este é altamente ignorado pela maior parte de nós e pode ser uma resposta tão cheia de conteúdo como qualquer outra, mesmo aquela em que usamos muitas e variadas palavras.

 Sei que o Wittgenstein manteve o programa na rádio durante algum tempo. Depois disso, voltou a escrever e tornou-se num homem novo. Chamam-lhe o Segundo Wittgenstein. Publicou um livro, Investigações Filosóficas. O lançamento foi ali mesmo, no jardim, no meio de um jogo de cartas, com os vizinhos. Há melhor forma de ilustrar que  a linguagem é um jogo?  E que o significado da palavra é estabelecido pelo uso que se lhe dá, num dado jogo de linguagem? É por isso que cá em casa batemos palmas à Bárbara que, com um ano,  diz, com todas as letras e de forma perfeita, a palavra cocó. É caso para dizer que, na nossa família,  o cocó deixa-nos felizes.

 

O girassol, a vontade e a representação. E o boicote do caracol. Humpf!

Conhecem aquelas pessoas que agem como se o mundo inteiro estivesse organizado contra elas? O Arthur pode, facilmente, ser integrado num desses grupos. Mas se o conhecermos melhor, mudamos de opinião.  Bastou uma tarde de sol e uma conversa na horta para (também) eu mudar de ideias sobre o Arthur. Sim, confesso que a vizinhança não viu com bons olhos a chegada do autor de O Mundo como Vontade e Representação à aldeia. Sim, isto de morar numa aldeia também tem aspectos menos positivos: todo um diz-que-disse. E eu fui apanhada por esses comentários, algures entre uma ida ao pão e uma caminhada com o meu cão.

Assim que se mudou para cá, Arthur rapidamente adoptou o hábito de me acompanhar na horta. Ele gostava de apreciar o crescimento das sementes. Muitas vezes ficamos em silêncio, outras vezes, o Arthur não se cala. E é muito bom ouvi-lo falar.

Arthur, há mais coisas no céu e na terra do que tédio e frustração, dizia-lhe eu. Repara só nestes girassóis a crescer, não é maravilhoso?

É, Joana, sem dúvida, mas já viste que o seu crescimento está a ser boicotado por um qualquer animal? Um caracol, aposto. As folhas todas roídas..., disse-me com um sorriso malandro. Franzi-lhe o sobrolho e disse: pois, acho que tenho que instalar uma câmara de vigilância para averiguar responsabilidades. Mas não desvies a conversa.

A vontade, Joana, a vontade. Se nesses girassóis que vemos a nascer a vontade se encontra nas suas manifestações instintivas, em nós, humanos, a vontade atinge o grau máximo. Nós somos a afirmação do ser, somos a vontade. Temos possibilidades éticas, estéticas e místicas para desvelar a aparência, a ilusão das representações.

Sim, Arthur, compreendo. E depois? Se aprisionarmos a vontade dentro de nós, não vamos deixar de viver rodeados de ilusões. Se a vontade nos dominar, transforma-se em sofrimento, dor. E o tédio. Arthur, o tédio faz-me muito mal à pele, já te disse!, respondi e recebi de volta uma sonora gargalhada. Sim, Schopenhauer é capaz de rir.

Sabes que mais? Gostava era que a vontade do caracol não colidisse com a vontade do girassol em nascer, e com a minha vontade em vê-lo florir e dar sementes para o meu hamster, o Jet Lee, satisfazer a sua (infinita) vontade em se alimentar. Isso é que era ouro sobre azul, Arthur.

De novo, recebi como resposta uma gargalhada. Sim, Schopenhuaer é capaz de rir e de forma muito ruidosa. Toda a aldeia se apercebe disso, aposto.

Continuámos o trabalho na horta. Quando o sol se pôs, arrumámos o material e despedimo-nos. Disse um até amanhã, Arthur, mas não recebi de volta um até amanhã; fui brindada com as seguintes palavras:

Antes de procurar a iluminação, as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Enquanto procurava a iluminação, as montanhas não eram montanhas e os rios não eram rios. Depois de alcançar o satori, as montanhas eram montanhas e os rios eram rios.

 

Se tiverem um acidente de automóvel não liguem para o Santo Agostinho

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O acidente é uma coisa que, por definição, acontece de forma imprevisível. É uma «casualidade não essencial». Um «sucesso imprevisto». Há dias, a caminho da aldeia, tive um acidente de viação. Sem dúvida que este acontecimento constituía algo que para mim era «não essencial». Quando dei por mim tinha a traseira do carro em muito mau estado e uma dor na cervical. Nestas alturas é esperado que telefonemos para a polícia (sim, e o número?), que se trate de papéis do seguro com a descrição pormenorizada do acidente (hora, velocidade, isto, aquilo). Pedem-nos um esforço de memória que, perante o cenário de «casualidade não essencial», se afigura como difícil.

Já em casa, recebi a visita do Santo Agostinho. Sabem como é, nas aldeias as notícias correm depressa, sobretudo as más. Encontrou-me de volta dos papéis do seguro. Trazia um saco de pêras, bem verdes (como eu gosto). Agostinho de Hipona, fizeste uma visita ao quintal alheio?,  perguntei-lhe, com um largo sorriso.

Joana, não brinques comigo, respondeu-me, sabes bem que os meus tempos de chinchada(*) já acabaram há muito. Além disso, tratei de plantar várias árvores de fruto, para não cair em tentação. Amén, respondi-lhe.

Contei-lhe da experiência do acidente e da necessidade de ter que prestar declarações sobre aquele: Agostinho, perguntam-me a que horas, a que velocidade ia, isto e aquilo. E o que me está mais fresco na memória é o caminho para o hospital e a estadia na sala de trauma e na sala de observação. E tudo me pareceu uma eternidade. Acho que o acidente foram segundos, mas até regressar a casa demorei dia, ainda que tenham passado apenas três horas.

O tempo, dizia ele, o tempo. O tempo não existe per se, Joana, disse-me, pensativo. Eu sei, Agostinho, mas não posso propriamente responder isso perante a companhia de seguros, respondi.

Se não tiver que explicar o que é o tempo, sei o que é. Se me perguntas o que é, não sei dizer, disse-me Agostinho. E eu olhava para ele e para o documento do seguro. Agostinho, não estás a ajudar. E desabafei: é tão difícil descrever o momento do acidente, parece que não houve nada antes, apenas o embate, parece que foi a partir daí que tudo começou, sabes?

Agostinho sorriu e disse, isso faz-me lembrar aquela pergunta que tantas vezes me fazem «o que fazia deus antes de criar o mundo?». A verdade é que não há tempo sem mundo e sem mundo não há mudança e sem mudança não há tempo. Assim, o tempo e o mundo só podem ter surgido ao mesmo tempo. Assim aconteceu com o teu acidente, ele só surgiu com o embate, pelo que antes disso ele não existia.

Agostinho, continuas a não ajudar. O que me dizes a um chá?,  perguntei enquanto me dirigia à cozinha.

Passámos o resto da tarde a beber chá e a conversar. Agostinho é um homem trabalhador e muito dedicado. Tem um apurado sentido de humor e é sempre um prazer tê-lo cá por casa. Mas não quando tenho que preencher participações de seguro. 

 

 

(*) chinchada é um termo que designa o acto de apanhar fruta das árvores alheias, para comer. Na minha aldeia, diz-se que a fruta acabada de colher é a mais saborosa.

O sol quando nasce é para todos. O ruído das ideias é que não.

[para ler como se fosse verão e como se tivesses acabado de ser diagnosticada com méniere]

 

Com o calor a fazer parte dos nossos dias, a aldeia fica um bocadinho deserta. É verdade. Os meus vizinhos vão até à praia, ganhar uma cor e construir castelos na areia. E há um vizinho que adora vestir o fato de treino e ir até ao shopping. Sim, sim, querem saber quem é? O Pascal. Tem receio de ser reconhecido desde aquele dia em que Jorge Jesus, o treinador do Benfica, o citou em conferência de imprensa. Sim, nessa altura foi um corropio na aldeia: telefonemas e visitas de ilustres treinadores para solicitarem a Pascal consultoria-táctico-futebolística.

Lembro-me de um certo domingo de  sol e de silêncio. Coisa rara. Numa aldeia onde moram, sobretudo, filósofos, é comum haver sempre ruído de fundo. Ou há conversas animadas um pouco por todo o lado ou então são simplesmente as ideias a fervilhar. Sim, tenho uma teoria que defende que as ideias, quando surgem, manifestam-se em ruído. Vivendo numa aldeia de filósofos e idiotas, perdão, ideístas!, tenho a experiência de ouvir um ruído permanente, uma espécie de zumbir constante. Às vezes, dá lugar a um piiiiiiii ensurdecedor. No princípio assustei-me com estes sintomas. Consultei alguns médicos daquela especialidade que têm sílabas para dar e para vender – otorrinolaringologista – e, se no princípio ficaram fascinados com o fenómeno, rapidamente procuraram uma explicação científica, que tivesse cabimento naquilo que estudaram sobre os ouvidos. Eu não tinha noção que o ouvido era algo tão complexo: interno, médio, externo. Fiquei fascinada a ouvi-los, mas mais ainda com o ruído das ideias que permanecia nos meus ouvidos.

Doença de Méniere: foi este o rótulo que me foi colocado. E eu, não senhor doutor, isto não é uma doença, é um dom, o dom de ouvir as ideias dos outros a surgir. Não lhe chame doença! Mas eles, os médicos, eram unânimes.

Nesse domingo, em conversa com Pascal (que envergava o seu fato de treino do Benfica), contou-me que sentia o mesmo: o zumbir constante, os apitos. De vez em quando, Joana, até tenho dores de cabeça insuportáveis, disse-me. Sei que a seguir a isso, surge uma boa ideia, tão boa, que a minha própria cabeça não a deve conseguir suportar!

Achei aquela perspectiva extraordinária. Adoptei-a de imediato. E o facto é que a seguir a um zumbir intenso e um apito acontece sempre uma boa ideia, como esta de olhar para a doença como algo que faz da saúde algo agradável e bom – aposto que o Heraclito concorda comigo.

Haja saúde. E domingos com sol. E amigos fieis, como o Méniere.

Eu eureko, tu eurekas, Arquimedes eureka, nós eurekamos!

Conhecido pelos seus «EUREKA» que irrompem o silêncio aqui da aldeia, Arquimedes de Siracusa é uma das pessoas mais admiradas na aldeia. Leonardo Da Vinci e Galileu Galilei costumam vir cá visitá-lo, com frequência e ficam encantados com as suas descobertas.

Até no banho, Arquimedes, até no banho, tu não páras, dizia-lhe eu enquanto ele rabiscava coisas e observava uma experiência que envolvia água e uma coroa de ouro e pedaços de ouro e de prata.

Joana, as respostas surgem quando menos esperamos, tens que estar disponível para que isso aconteça, respondeu Arquimedes.

Há uma oficina grande na sua casa. Nela encontramos desenhos e rabiscos, espalhados pelas paredes. Ao fundo, uma alavanca com uma esfera que representa o planeta terra, de um lado, e do outro lado, escrito a giz, no chão,

«Dai-me um ponto de apoioe levantarei o mundo».

Caminhei até lá em silêncio. Pressionei a alavanca. O mundo ergueu-se. Era tão bom que fosse assim, Arquimedes, aqui nem é preciso muita força, basta querer, disse-lhe. Ele respondeu com um sorriso e acrescentou, Joana, o mundo move-se com pequenos Eurekas, com pequenas descobertas feitas enquanto se toma banho ou se descasca uma cebola. O teu mundo move-se assim, mesmo que o mundo dos outros pareça profundamente imóvel.

Fiquei em silêncio. Voltei a pressionar a alavanca. A imagem do mundo a erguer-se enchia-me as medidas, enchia-me de esperança. Eu já tinha um ponto de apoio, a vontade e a força q.b..

Ficámos em silêncio. Arquimedes continuou a fazer desenhos e a pensar alto (sim, era comum ouvi-lo a falar consigo mesmo enquanto trabalhava). Fiquei alguns minutos a olhar para o mundo, do outro lado daquela alavanca. Imóvel. À espera de ser positivamente abanado. Sem terramotos, apenas abanões dos bons, que nos fazem pensar e sentir. Sonhos que, como diz o poeta, fazem o mundo pular e avançar.

Arquimedes? Concebes que o ponto de apoio possa ser ele próprio móvel e que se vá adaptando ao mundo e assim provoque a mudança?, perguntei. Arquimedes levantou os olhos do papel e dos rabiscos nos quais estava a trabalhar e sorriu, Joana, a filosofia não é o meu forte, bem sabes; comigo é mais engenharia e engenhocas. E banhos!

Banhos. Este homem não tem a noção de como um banho dele pode revolucionar a física, a engenharia e afins. Os «pequenos» Eurekas dele são, permitam-me a expressão «muito enormes».

Deixei Arquimedes e  fui passear pela aldeia; estava um fantástico dia de sol e o mundo parecia diferente desde que eu tinha entrado na sua oficina. Impressionante como o mundo à nossa volta parece outro quando nós próprios mudamos. Eureka!

 

arquimedes.j

 

 

Dúvidas, o Génio Maligno e um bolo em forma de cisne negro

Nas últimas semanas tive a visita da Maria, uma aluna de Filosofia, do 11º ano, que estava a “enlouquecer” com a preparação para o exame. Aceitei dar-lhe uma ajuda, com a premissa de que ela teria que apresentar dúvidas. E para ter dúvidas teria que ter estudado previamente. O «não sei nada disto» seria um argumento inaceitável.

Viajámos até às questões da filosofia do 10º ano. O que é a filosofia? A acção humana e os valores, o ethos, o pathos, o logos. E depois: a argumentação, a retórica, o conhecimento empírico e o conhecimento científico. As questões de lógica. A Maria teve a sorte de tirar algumas dúvidas com os próprios autores. Acabámos por interromper o Sócrates nos seus passeios matinais para que a Maria pudesse colocar-lhe algumas questões relacionadas com a sofística e a retórica. Popper e Kuhn chegaram a lanchar connosco para explicar à Maria as suas concepções sobre o conhecimento científico. Foi hilariante: Popper tem estado a frequentar um curso de decoração de bolos e trouxe-nos um bolo em forma de cisne negro.

Nas vésperas do exame, o nervoso da Maria era mais do que evidente. Tínhamos combinado fazer provas-modelo, para retirar algumas dúvidas e exercitar a escrita. Eu não quero fazer o exame, disse-me ela. Não percebo nada disto, acrescentou. Maria, não deixes que o génio maligno cartesiano te iluda, disse-lhe. A dúvida é metódica, lembras-te? Não podes viver nesse estado constante, sobretudo – sejamos práticas – nas vésperas do exame!, respondi-lhe em tom de brincadeira. Brincadeira séria.

Mas não consegui resgatar-lhe um sorriso. Ela estava mesmo aflita. Sugeri um intervalo no estudo para beber um café. Pelo caminho, conversámos sobre coisas da vida: a dela e a minha. Criámos distância face ao estudo e aos génios malignos que o estavam a assombrar.

 No café encontrámos Stuart Mill e  Rawls, com quem a Maria precisava mesmo de debater algumas questões. Às tantas, já a Maria discutia com Rawls sobre a questão da equidade e “puxava as orelhas” a Stuart Mill por não concordar com o seu utilitarismo. Foi maravilhoso ver a Maria a argumentar e a defender que as pessoas não são meios, mas fins em si mesmos. A sério, Mill, pensa lá melhor, disse-lhe a Maria, que pegou no giz e explicou a sua argumentação com um esquema para lá e para cá (nota: a parede do café da aldeia é toda ela um quadro negro onde se podem deixar as ideias inscritas).

Eu fiquei a observar, nem abri a boca. A Maria-cheia-de-dúvidas tinha dado lugar a uma Maria-cheia-de-ideias e estava simplesmente a mostrar que sabia pensar e aplicar os conhecimentos.

No caminho para casa a Maria estava outra: confiante e capaz de se “atirar” ao exame.

No dia seguinte, o Stuart Mill apareceu aqui à porta. Não está aí a tua amiga Maria?, perguntou-me. Não, ela hoje tem exame, respondi. Entregas-lhe isto?, e Mill deu-me um rolo de papel com esquemas e desenhos. Era a sua contra argumentação, perante as questões da Maria.

Assim é o trabalho do filósofo; parece que a conversa e a discussão tendem para o infinito e nunca vão acabar. Que maravilha, não acham?

 

o brinco do baptista

e outras jogadas táctico-linguísticas à volta da filosofia e do futebol

brinco_filosofico.png

(foto furtada ali do instagram do to.colante)

em 1978, depois de marcar o golo decisivo do derby que opunha o benfica ao sporting, vitor baptista dá-se conta de que tinha perdido o brinco. o jogo parou e todos procuraram o brinco do baptista, adversários inclusivé.

 

em 2019, o tibério, o engrácia e o aires dão voz a um projecto do benfica independente de seu nome "o brinco do baptista". é um podcast que gira em torno do futebol. e que procura ir para lá do futebol, abordando temas tão diversos como a literatura ou o racismo. o episódio #14 deste podcast versa sobre filosofia. 

 

e não só.

falámos de twitter (afinal, foi lá que conheci o projecto), do #twitterchatpt, de verdade, do benfica, da emoção que o futebol movimenta, de livros, de wittgenstein e de filosofia para crianças. 

e saímos dali com o compromisso de criar conteúdos onde a filosofia e o futebol pudessem casar. ou pelo menos namorar.

tenho para mim que os autores deste podcast ainda não perderam a esperança de o encontrar. ao brinco. do baptista, claro. suspeito que, se o encontrarmos, daremos de caras também com o sentido da vida. 

ou então não.

entretanto, sigam #obrinco (do baptista!) nas várias plataformas (spotify, itunes, youtube) e apoiem este projecto, partilhando e interagindo com os seus intervenientes no twitter

 

 

 

 

 

"Forrobodó" filosófico ou uma espécie de caos organizado

Não fazem ideia do "forrobodó[filosófico] que se vivia ali na rua de cima. Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Empédocles em “discussão” acessa. Não conseguia perceber muito bem o que diziam, mas era evidente todo um aparato à sua volta: o carro com a bagageira aberta, malas no chão, raquetes de praia, bóias cheias (aposto que foi ideia do Anaxímenes, sabemos que ele tem aquela fixação pelo ar, o elemento que tudo invade, infinito e incessante) e toalhas de praia. Quando me aproximei, voavam chinelos. JU-RO.

Traz-me  a bomba, traz-me a bomba, gritava Anaxímenes. Bomba? Mas qual bomba, perguntei eu a Tales, que estava mais distante a assistir a tudo. Joana, não digas a ninguém, mas o Anaxímenes sofre de asma. Irónico, não é? Ele que sempre defendeu que o ar era o princípio do qual provêm todas as coisas. Foi um duro golpe para ele, como deves imaginar, respondeu Tales, com a calma que lhe é tão característica.

Fiquei estupefacta. Anaximandro abria a mochila, à procura da bomba, e atirava tudo cá para fora. Imaginem um mágico a sacar mil e um objectos de dentro de uma cartola – era mais ou menos este o cenário; e os objectos eram (basicamente) roupa interior. Vim a descobrir que Anaxímenes usava boxers com bonecos. Dispensável, este tipo de informação. Mas adiante.

Afinal o que é que se passa, Tales?, perguntei.

Nada de especial. Estamos só a tentar organizar as malas para a viagem de férias, contou Tales. Mas até está a correr bem, tendo em conta o caos organizado ao qual tens o privilégio de assistir, Joana.

Caos organizado – eis uma expressão curiosa, vinda da boca de Tales, o homem que ficou conhecido aqui na aldeia por passear a olhar para o céu, observando os astros e tropeçar nos passeios, cair a torto e a direito. Platão até escreveu num dos seus livos que “Tales, ansioso por conhecer as coisas do céu, não se dava conta do que estava atrás dele e mesmo a seus pés.”

E onde vão ser as férias?, perguntei eu a Tales. Vai ser uma road trip, Joana. Anaxímenes quer apreciar o ar, não interessa onde. Eu contento-me com algumas horas a olhar o céu; o Anaximandro fica satisfeito perto do mar; o Empédocles fica em paz em qualquer sítio onde possa apreciar os quatro elementos. Acho que isto tem tudo para correr muito bem, seja lá onde for, não achas, Joana?

Quem sou eu para discordar de ti, Tales?, respondi.  Boa viagem. Vão dando notícias, sei lá, enviem-me postais.

Ontem fui à caixa do correio e lá estava: uma fotografia, estilo polaroid, dos quatro, numa praia, à noite, com uma fogueira, a contemplar o mar, o céu. Colares de flores ao pescoço e sorriso nos lábios. Joana, estamos a divertir-nos bué – podia ler-se no verso da fotografia.

Bué? Ora essa, ninguém diria.

Já a aldeia, essa, ficou bué calma desde que os quatro filósofos do forrobodó partiram. Espero que regressem em breve, a tranquilidade pode tornar-se entediante. Bué entediante, vá.

 

 

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