O sol quando nasce é para todos. O ruído das ideias é que não.
[para ler como se fosse verão e como se tivesses acabado de ser diagnosticada com méniere]
Com o calor a fazer parte dos nossos dias, a aldeia fica um bocadinho deserta. É verdade. Os meus vizinhos vão até à praia, ganhar uma cor e construir castelos na areia. E há um vizinho que adora vestir o fato de treino e ir até ao shopping. Sim, sim, querem saber quem é? O Pascal. Tem receio de ser reconhecido desde aquele dia em que Jorge Jesus, o treinador do Benfica, o citou em conferência de imprensa. Sim, nessa altura foi um corropio na aldeia: telefonemas e visitas de ilustres treinadores para solicitarem a Pascal consultoria-táctico-futebolística.
Lembro-me de um certo domingo de sol e de silêncio. Coisa rara. Numa aldeia onde moram, sobretudo, filósofos, é comum haver sempre ruído de fundo. Ou há conversas animadas um pouco por todo o lado ou então são simplesmente as ideias a fervilhar. Sim, tenho uma teoria que defende que as ideias, quando surgem, manifestam-se em ruído. Vivendo numa aldeia de filósofos e idiotas, perdão, ideístas!, tenho a experiência de ouvir um ruído permanente, uma espécie de zumbir constante. Às vezes, dá lugar a um piiiiiiii ensurdecedor. No princípio assustei-me com estes sintomas. Consultei alguns médicos daquela especialidade que têm sílabas para dar e para vender – otorrinolaringologista – e, se no princípio ficaram fascinados com o fenómeno, rapidamente procuraram uma explicação científica, que tivesse cabimento naquilo que estudaram sobre os ouvidos. Eu não tinha noção que o ouvido era algo tão complexo: interno, médio, externo. Fiquei fascinada a ouvi-los, mas mais ainda com o ruído das ideias que permanecia nos meus ouvidos.
Doença de Méniere: foi este o rótulo que me foi colocado. E eu, não senhor doutor, isto não é uma doença, é um dom, o dom de ouvir as ideias dos outros a surgir. Não lhe chame doença! Mas eles, os médicos, eram unânimes.
Nesse domingo, em conversa com Pascal (que envergava o seu fato de treino do Benfica), contou-me que sentia o mesmo: o zumbir constante, os apitos. De vez em quando, Joana, até tenho dores de cabeça insuportáveis, disse-me. Sei que a seguir a isso, surge uma boa ideia, tão boa, que a minha própria cabeça não a deve conseguir suportar!
Achei aquela perspectiva extraordinária. Adoptei-a de imediato. E o facto é que a seguir a um zumbir intenso e um apito acontece sempre uma boa ideia, como esta de olhar para a doença como algo que faz da saúde algo agradável e bom – aposto que o Heraclito concorda comigo.
Haja saúde. E domingos com sol. E amigos fieis, como o Méniere.
