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all about little lady bug

ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

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Dúvidas, o Génio Maligno e um bolo em forma de cisne negro

Nas últimas semanas tive a visita da Maria, uma aluna de Filosofia, do 11º ano, que estava a “enlouquecer” com a preparação para o exame. Aceitei dar-lhe uma ajuda, com a premissa de que ela teria que apresentar dúvidas. E para ter dúvidas teria que ter estudado previamente. O «não sei nada disto» seria um argumento inaceitável.

Viajámos até às questões da filosofia do 10º ano. O que é a filosofia? A acção humana e os valores, o ethos, o pathos, o logos. E depois: a argumentação, a retórica, o conhecimento empírico e o conhecimento científico. As questões de lógica. A Maria teve a sorte de tirar algumas dúvidas com os próprios autores. Acabámos por interromper o Sócrates nos seus passeios matinais para que a Maria pudesse colocar-lhe algumas questões relacionadas com a sofística e a retórica. Popper e Kuhn chegaram a lanchar connosco para explicar à Maria as suas concepções sobre o conhecimento científico. Foi hilariante: Popper tem estado a frequentar um curso de decoração de bolos e trouxe-nos um bolo em forma de cisne negro.

Nas vésperas do exame, o nervoso da Maria era mais do que evidente. Tínhamos combinado fazer provas-modelo, para retirar algumas dúvidas e exercitar a escrita. Eu não quero fazer o exame, disse-me ela. Não percebo nada disto, acrescentou. Maria, não deixes que o génio maligno cartesiano te iluda, disse-lhe. A dúvida é metódica, lembras-te? Não podes viver nesse estado constante, sobretudo – sejamos práticas – nas vésperas do exame!, respondi-lhe em tom de brincadeira. Brincadeira séria.

Mas não consegui resgatar-lhe um sorriso. Ela estava mesmo aflita. Sugeri um intervalo no estudo para beber um café. Pelo caminho, conversámos sobre coisas da vida: a dela e a minha. Criámos distância face ao estudo e aos génios malignos que o estavam a assombrar.

 No café encontrámos Stuart Mill e  Rawls, com quem a Maria precisava mesmo de debater algumas questões. Às tantas, já a Maria discutia com Rawls sobre a questão da equidade e “puxava as orelhas” a Stuart Mill por não concordar com o seu utilitarismo. Foi maravilhoso ver a Maria a argumentar e a defender que as pessoas não são meios, mas fins em si mesmos. A sério, Mill, pensa lá melhor, disse-lhe a Maria, que pegou no giz e explicou a sua argumentação com um esquema para lá e para cá (nota: a parede do café da aldeia é toda ela um quadro negro onde se podem deixar as ideias inscritas).

Eu fiquei a observar, nem abri a boca. A Maria-cheia-de-dúvidas tinha dado lugar a uma Maria-cheia-de-ideias e estava simplesmente a mostrar que sabia pensar e aplicar os conhecimentos.

No caminho para casa a Maria estava outra: confiante e capaz de se “atirar” ao exame.

No dia seguinte, o Stuart Mill apareceu aqui à porta. Não está aí a tua amiga Maria?, perguntou-me. Não, ela hoje tem exame, respondi. Entregas-lhe isto?, e Mill deu-me um rolo de papel com esquemas e desenhos. Era a sua contra argumentação, perante as questões da Maria.

Assim é o trabalho do filósofo; parece que a conversa e a discussão tendem para o infinito e nunca vão acabar. Que maravilha, não acham?

 

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