compota, Constança. compota.
desafio dos pássaros #7
a Constança tem 30 anos e é cliente assídua da loja do Sr. Alfredo, uma antiga drogaria que fica algures em Campo de Ourique. fica perto da sua casa e, tal como é típico das drogarias, vende um pouco de tudo: desde parafusos, a enlatados, passando por cremes e alimentos para animais. a Constança gosta de comprar novidades, ainda que a loja do Sr. Alfredo seja uma das mais antigas daquela rua.
a Miriam trabalha para o Sr. Alfredo há dois meses. é uma jovem insegura de 20 e poucos anos que precisa garantir uma fonte de subsistência para poder suportar a casa na periferia de Lisboa. o Sr. Alfredo, do alto dos seus quase 60 anos, consegue aterrorizá-la com os seus objectivos de vendas semanais. todas as semanas a Miriam vê-se obrigada a vender um determinado produto cujo stock necessita ser escoado. esta semana é preciso "despachar" a compota de abóbora com amêndoa: o prazo termina dentro de um mês e é necessário encomendar novos sabores. "faz o que entenderes, mas tens de ter esta prateleira vazia até sexta", disse-lhe o Sr. Alfredo enquanto apontava para o armário onde estavam as compotas.
naquele dia, a Constança passou pela drogaria para comprar meia dúzia de coisas para a casa: o óleo para passar nos móveis, comida para o canário e fósforos.
- é tudo, Constança? - perguntou a Miriam.
- é. ó Miriam, conte lá qual é o segredo para a pele do seu rosto, está sempre tão brilhante e vivaça - perguntou a Constança.
fez-se luz na cabeça de Miriam, que não usava qualquer produto específico para a pele. o gel de duche era de marca branca e do que gostava mesmo era de sabão azul e branco. mas fez-se luz. a compota. em vez do tokalon, em vez do benamor: a compota. será que pega?
- Constança, se lhe contar não acredita.
- acredito, pois, Miriam. vai dizer-me que usa aquele lista longa e cara que a Cristina Ferreira partilhou no instagram? como é que consegue comprar aquilo tudo? - Constança arrependeu-se da pergunta no segundo seguinte: afinal, não tinha nada a ver com o dinheiro que a Miriam gastava na sua pele.
- não é preciso gastar muito dinheiro. o meu segredo é muito acessível e vende-se aqui na loja. descobri por acaso, num dia de neura em que só me apetecia comer torradas com compota - respondeu a Miriam.
a história era credível: um dia de tpm, vontade de comer doces e de chorar sem razão aparente. qualquer mulher sabe que isso resulta num ou noutro disparate, como encher a cara de compota de abóbora com amêndoa, fazendo de conta que era uma máscara facial daquelas muito caras. riram muito, a Miriam e a Constança. riram tanto que a Constança saiu da loja com os 12 frascos que habitavam na prateleira pois a 3,50 eur cada um não iria desperdiçar a oportunidade de ter uma pele radiante - e não estamos a falar só do rosto. sim, a Constança pretendia barrar-se de compota da cabeça aos pés. Miriam aprovou a ideia e até pediu que tirasse fotografias à pele, para fazer o antes e depois.
o segredo da pele radiante foi assim revelado a Constança, que ainda hoje, um ano depois, continua a praticar o ritual ao sábado de manhã: compota all over her body enquanto lê a revista Cristina ou o último romance de António Lobo Antunes.
já Miriam, essa, continua a inventar histórias para despachar os stocks de produtos do Sr. Alfredo que até lhe aumentou o ordenado ao ver os objectivos a serem cumpridos, semana após semana.

fotografia: Olia Gozha / Unsplash
(nota: o desafio implicava vender a compota como produto capilar, mas ao olhar para a embalagem de benamor, ali na mesinha, não resisti a fazer batota)
