" Como é que uma escrita vulgar é igualmente excêntrica? Quando nos surpreende."
"A estranheza perante Conan Osiris leva-nos a procurar referências que se lhe ajustem. A mais imediata será António Variações, mas não, Conan não é uma variação do Variações. Desde logo porque não tem Pedro Ayres Magalhães algum a domesticar o indomesticável (e isso sucedeu com Variações, embora António fosse um aluno que sempre acrescentou mais e mais, desobediente e grandioso ao ponto de fazer esquecer as regras de um jogo pequenino. Ultrapassou tudo e todos). Conan tem consigo a mesma bagagem do inesperado, em escala ainda mais acelerada e isso corre sempre a seu favor. Sobretudo porque há quem o não perceba. Conan não é para perceber, não é mainstream e faz mais por todas as expressões artísticas que todos os consagrados que passam a vida, que remédio, a auto-consagrarem-se. Espécie de movimento perpétuo do nada. Conan vai na direcção oposta. Em tudo o que toca e canta há um sabor popular que se encontra nas velhas cantadeiras portuguesa, russas, búlgaras. Que sei eu... As letras são poemas excêntricos e vulgares. Como é que uma escrita vulgar é igualmente excêntrica? Quando nos surpreende.
Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pa' saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu
E quem mata quem
Quem mata quem mata?
Quem mata quem?
Nem eu sei
Quando eu souber, eu não ligo a mais ninguém
E se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer
Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
E eu vou estragar o telemóvel
Eu quero viver e escangalhar o telemóvel
E se eu partir o telemóvel?
Eu só parto aquilo que é meu
'Tou para ver se a saudade morre
Vai na volta, quem morre sou eu
Quem mata quem mata?
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém
Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade 'tá morta
Quem mandou a flecha fui eu
Quem mandou a flecha fui eu
Fui eu
Quem se dedicar à vaca da hermenêutica deste poema está condenado a estragar tudo.
Para mim, ouvir Conan é um gozo que se espalha pelo meu corpo, mesmo que incapaz de dançar como o belo rapaz que acompanha o belo Conan.
Espero que ganhe a Eurovisão e que se represente como é: um meteorito caído no centro da cabeça de cada um, em especial de todos. Avé Conan, o multidisciplinar despreocupado com explicações que não são para aqui chamadas. De resto, poucos são os artistas que não metem água ao explicar o que fazem. Poucos são os que apontam para a obra e, calados, se afastam sem dar uma pista que seja."
texto de Fátima Rolo Duarte (no facebook)
