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all about little lady bug

ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

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ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

A minha vida é um intervalo entre o ser e o nada: inclui golfinhos ao pôr do sol

Viviam-se dias tristes na aldeia. A Sra. Joaquina, a dona do café central, tinha perdido o sorriso e a vontade de conversar. A minha Susana está muito doente, contou-nos. Eu e o Sartre não sabíamos o que dizer. Temia-se o pior. E era impossível ficar indiferente  ao olhar triste da Sra. Joaquina, ela que tinha sempre um sorriso aberto e meia dúzia de palavras no bolso da bata para trocar com quem por lá aparecesse. Aqui na aldeia, ir ao café significa muito mais do que simplesmente repôr os níveis de cafeína; significa um momento de encontro e de diálogo, com os outros vizinhos e sobretudo com a Sra. Joaquina.

Ai menina ando aqui de coração muito apertado, tão aflita, acrescentou. Eu olho ali para o livro do Sr. João Paulo [é assim que a Joaquina trata o Jean Paul Sartre] e só vejo o nada. O ser deixou de fazer sentido para mim.

Peguei no telefone e disse, Joaquina, vou pedir-lhe uma oportunidade para lhe restaurarmos a fé no ser, ok? Ela ficou muito espantada a olhar para mim. Deixe-me só fazer uma chamada.

Desliguei e disse-lhe, amanhã às 15h venho buscá-la, com a minha amiga Sophia. Não se preocupe com o café, o Sartre e a Simone dão um olho nisto, certo? Sartre respondeu com um Oui assertivo e imediato.

Quando alguém está a sofrer desta forma, na primeira pessoa ou por alguém que lhe é próximo, as palavras são poucas, curtas e ocas. É difícil dizer algo que consiga pôr de pé um corpo caído por não poder aliviar a dor do outro. Ou a nossa. A Sophia tinha-me ligado há uns dias para partilhar algo que classificou de único e maravilhoso. Joana, nem imaginas, estávamos a passear de barco, ao pôr do sol e os malandros apareceram aos pares. Nem sei quantos eram. A desafiar-nos para brincar. Uma maravilha. Golfinhos, Sophia? Sim, Joana, foi um daqueles momentos que apetece guardar para recuperar nos dias menos bons, sabes?

Sei, Sophia, e é por isso que decidi levar lá a Joaquina.

À hora marcada lá fomos nós, até ao porto. Nunca andei de barco, menina, disse-me a Joaquina, meio assustada.  Vai ser o seu baptismo de mar alto, já viu, respondi.

Fruto de uma qualquer conjugação cósmica, ao pôr do sol a história repetiu-se: os golfinhos apareceram mesmo. Dois, quatro, seis. Seriam dez? Doze? Não sei. Mas foi maravilhoso. Ficámos as três a olhar para eles, estendemos a mão para lhes tocar. E a Joaquina sorriu de novo. Afundámos o nada que lhe tinha invadido o espírito, por momentos. Também por momentos tudo voltou a fazer sentido. Tocámos a paz de espírito, pelo menos, estendemos a mão na sua direcção.

Voltámos para a aldeia em silêncio. De alma lavada. Encontrámos o café num brinco: o Sartre e a Simone deram conta do recado como ninguém.

Todos temos  de poder escolher a vida em todas as circunstâncias. A Sra Joaquina também, não se esqueça disso, disse-lhe Sartre, ao despedir-se.

Aqueles golfinhos não sabem, mas naquele dia tiveram o poder de nos fazer escolher a vida, mesmo quando esta não nos sorri. 

Entre o ser e o nada, escolho a imagem dos golfinhos, no mar, ao pôr do sol.

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