olá, eu sou o Félix. ou Feliz, como algumas pessoas me chamam. é assim que a mãe Sabel me chama: Feliz. e eu respondo, de rabo a dar a dar, por aí fora, sempre pronto para receber mimos.
posso desde já avisar que não gosto muito de festas na cabeça, prefiro que te aproximes de mim sem movimentos bruscos e me deixes tomar a iniciativa.
bom, mas onde é que eu ia? ah, sim, na mãe Sabel. esta pessoa humana preocupa-se muito comigo, nomeadamente se tenho comida e uma manta limpa e seca para me deitar. é que eu vivo com o Friqui, com quem disputo uma das duas casotas cá de casa, na hora de dormir. o que havemos de fazer? gostamos os dois de dormir no mesmo sítio e quem fica de fora acaba por dormir na rua, na mantinha. eu sei, não tem muita lógica, mas hey. sou um cão.
eu vivia num abrigo, em Lisboa e fui encaminhada para o albergue da UPPA - União Para a Protecção dos Animais. foi lá que conheci o João, o irmão da Joana. ele era (e ainda é) voluntário nesta associação e apresentou-me à Joana numa das suas visitas ao albergue. ela queria um cão para passear e lá fui eu.
nesse dia a Joana tinha um gorro com uns penduricalhos que me fizeram saltar o tempo todo, durante o passeio. resultado: consegui adoptar a Joana e, por conseguinte, o João e a mãe Sabel. agora são a minha família e aturam-me nos momentos menos bons (idas ao veterinário, por exemplo) e nos momentos super-fantásticos (quando corro de um lado para o outro com um brinquedo novo na boca).
além do Friqui, tenho um outro amigo canino, o Kioko. é um bulldog francês e era suposto ser muito chique, mas na verdade é mais rafeiro do que eu. acho que a culpa é da minha família, que trata todos por igual, respeitando as nossas diferenças. por exemplo, eu não gosto de estar em casa; já o Kioko, adora. eu não gosto de apanhar muito sol, já o Kioko adora. o Friqui? bom, o Friqui está velhinho e cada vez mais anti-social. tenho de ter muita paciência para ele, confesso.
se pudesse fazer um apelo, dizia para adoptarem a minha família. eles são do melhor, é um facto. mas não estão para adopção. já na #uppa_animais encontram muitos amigos de 4 patas à espera para adoptar uma família, tal como eu acabei por fazer.
eu sou o Félix e sou Feliz. e agora vou ali fazer coisas de cão, como diz a Joana (inclui bater à porta da cozinha para pedir biscoito).
já chegámos? agora que já se encontraram, no presente, sabem que já estiveram perto, no passado. o presente saiu envenenado, pois não se encontram (a) sós. agora que estão perto não se podem aproximar. poder, até podem. não devem. já chegámos? damos um tempo, disse ele. um tempo para ver o que acontece na vida, já que temos o bilhete privilegiado para o espectáculo. será boa ideia darmos também um espaço, disse ela, pois se nos aproximamos muito deixamos de perguntar se já chegámos. chegamos e depois não há nada a fazer. ainda falta muito? se falta muito? espero que não. gostava que não, mas sei que vai faltar sempre demais. já chegámos? não, pois não vamos seguir caminho. nesse caso, vamos.cada um para o seu lado. nesse caso, vamos ficar com este (des)encontro atravessado, disse ela.
como estás? eu até sei a resposta, pois eu sou tu, ainda que só o seja daqui a uns anos. mas já fui há uns anos "atrás". enfim, parece complicado. e é, na verdade.
a vida é tudo menos simples, joana. e tu vais adorar isso, pois daqui a 40 anos vais bradar aos céus que és filósofa e adoras problemas. ups. spoiler alert. mas na verdade o que posso dizer-te que não entre na categoria "spoiler alert"? nada.
podia listar uma série de coisas que poderias fazer diferente, mas francamente não vale a pena. não sei dizer como será se escolheres outra coisa, se optares pela rua A em vez da rua B. posso imaginar, sim. posso ter as escolhas que fiz como referência, mas isto só me ajuda daqui para a frente, creio que não me irá ajudar daqui para trás.
dança sempre que for possível. ri-te na cara das adversidades. desvia-te das balas com estilo. abre todas as portas que encontrares, quando desceres pela toca do coelho. se caíres, olha, levanta-te. faz atenção aos joelhos e às articulações e quanto mais cedo começares a tomar colagénio, melhor.
escolhe as tuas pessoas e não tenhas problemas em deixar outras pelo caminho. faz parte. é bom, ainda que doa. o prazer e a dor são dois elementos que muitas vezes se cruzam e o melhor que podes fazer quanto é isso é beber tinto.
e evita fazer risco ao meio na franja. de resto, segue caminho.
desafio desta semana: escreve uma carta para a criança que foste
a Constança tem 30 anos e é cliente assídua da loja do Sr. Alfredo, uma antiga drogaria que fica algures em Campo de Ourique. fica perto da sua casa e, tal como é típico das drogarias, vende um pouco de tudo: desde parafusos, a enlatados, passando por cremes e alimentos para animais. a Constança gosta de comprar novidades, ainda que a loja do Sr. Alfredo seja uma das mais antigas daquela rua.
a Miriam trabalha para o Sr. Alfredo há dois meses. é uma jovem insegura de 20 e poucos anos que precisa garantir uma fonte de subsistência para poder suportar a casa na periferia de Lisboa. o Sr. Alfredo, do alto dos seus quase 60 anos, consegue aterrorizá-la com os seus objectivos de vendas semanais. todas as semanas a Miriam vê-se obrigada a vender um determinado produto cujo stock necessita ser escoado. esta semana é preciso "despachar" a compota de abóbora com amêndoa: o prazo termina dentro de um mês e é necessário encomendar novos sabores. "faz o que entenderes, mas tens de ter esta prateleira vazia até sexta", disse-lhe o Sr. Alfredo enquanto apontava para o armário onde estavam as compotas.
naquele dia, a Constança passou pela drogaria para comprar meia dúzia de coisas para a casa: o óleo para passar nos móveis, comida para o canário e fósforos.
- é tudo, Constança? - perguntou a Miriam.
- é. ó Miriam, conte lá qual é o segredo para a pele do seu rosto, está sempre tão brilhante e vivaça - perguntou a Constança.
fez-se luz na cabeça de Miriam, que não usava qualquer produto específico para a pele. o gel de duche era de marca branca e do que gostava mesmo era de sabão azul e branco. mas fez-se luz. a compota. em vez do tokalon, em vez do benamor: a compota. será que pega?
- Constança, se lhe contar não acredita.
- acredito, pois, Miriam. vai dizer-me que usa aquele lista longa e cara que a Cristina Ferreira partilhou no instagram? como é que consegue comprar aquilo tudo? - Constança arrependeu-se da pergunta no segundo seguinte: afinal, não tinha nada a ver com o dinheiro que a Miriam gastava na sua pele.
- não é preciso gastar muito dinheiro. o meu segredo é muito acessível e vende-se aqui na loja. descobri por acaso, num dia de neura em que só me apetecia comer torradas com compota - respondeu a Miriam.
a história era credível: um dia de tpm, vontade de comer doces e de chorar sem razão aparente. qualquer mulher sabe que isso resulta num ou noutro disparate, como encher a cara de compota de abóbora com amêndoa, fazendo de conta que era uma máscara facial daquelas muito caras. riram muito, a Miriam e a Constança. riram tanto que a Constança saiu da loja com os 12 frascos que habitavam na prateleira pois a 3,50 eur cada um não iria desperdiçar a oportunidade de ter uma pele radiante - e não estamos a falar só do rosto. sim, a Constança pretendia barrar-se de compota da cabeça aos pés. Miriam aprovou a ideia e até pediu que tirasse fotografias à pele, para fazer o antes e depois.
o segredo da pele radiante foi assim revelado a Constança, que ainda hoje, um ano depois, continua a praticar o ritual ao sábado de manhã: compota all over her body enquanto lê a revista Cristina ou o último romance de António Lobo Antunes.
já Miriam, essa, continua a inventar histórias para despachar os stocks de produtos do Sr. Alfredo que até lhe aumentou o ordenado ao ver os objectivos a serem cumpridos, semana após semana.
(nota: o desafio implicava vender a compota como produto capilar, mas ao olhar para a embalagem de benamor, ali na mesinha, não resisti a fazer batota)
esta semana o desafio dos pássaros pede-me uma história romântica. ora, isso do romantismo é coisa que não me assiste.
pronto, confesso. gosto de ver nos filmes. por exemplo? a dupla romântica do matrix, o neo e a trinity.
pois, não é bem disto que estão à espera quando se fala em "história romântica". vou tentar mais uma vez. na alice in wonderland não há dupla romântica, pois não?
humm.
já sei. na série La Casa de Papel há muitas duplas românticas. vejamos: o Professor e a senhora polícia que depois passa a chamar-se Lisboa. e ele até se envolve a sério com ela. há o Denver e a rapariga que depois passa a chamar-se Estocolmo. sim, o síndrome de Estocolmo. eles envolvem-se à séria e assumem o filho juntos e tudo. uma confusão, pois o filho é do Arturito. depois há a Tóquio e o Rio e - aí sim - acontece o "o amor e uma cabana". os pequenos decidem ir viver numa ilha, literalmente numa cabana. o amor e uma cabana. TAU.
MAS - e nestas coisas do amor há sempre um MAS - a Tóquio cansa-se da cabana. não lhe chega o amor e a cabana. faz-lhe falta a luz da cidade, a música aos altos berros, o alcóol, os amigos. o amor e uma cabana não chegam? parece que não. há uma calma após a tempestade com a qual é difícil de lidar. falta o sal, o sol, o açúcar, o tinto e tudo aquilo que faz mal e faz bem, ao mesmo tempo, que provoca diabetes e avc e tudo aquilo a que um coração farto tem direito.
o amor, a cabana e o tédio. em vez do frigorífico. é que este já anuncia o esfriar da relação. 'ssoas que se tornam em pedras de gelo, uma para com a outra. o frigorífico também serve para guardar o corpo do amado - desculpem, o dexter desceu sobre mim.
o amor, a cabana e o amor. assim é que é. que nunca nos falte, mesmo que um dia acordes e notes que tens o frigorífico vazio de emoções. vale a pena (atentem ao momento romântico) tudo o que acontece até esse momento.
«Sinto que fui demasiado grande para ti, e, numa possível luta, algo demasiado exigente para alguém como tu. É pena.» *
A Beatriz disse que não. E agora? Ela já tinha pensado em dizer não. Em dizer: chega. Tinha, durante anos, sido demasiado grande para ela. Hesitou em dizer: não seria arrogante da sua parte? Agressivo? Violento, mesmo? Seria. Seria, e foi, pois no momento em que aquelas palavras ecoaram algures pelo ar que separava a Beatriz daquele homem que tanto lhe disse outrora, olhar dele fixou o chão, como se as pálpebras, as tuas pestanas pesassem toneladas. Se calhar ele chorou nessa noite. Se calhar até nem conseguiu jantar. Aposto que nos dias seguintes andou por aí, meio perdido, com o olhar num horizonte longínquo. A Beatriz não sabe dizer se assim foi. Nunca mais a Beatriz olhou para ele, não desde esse dia. E não lamenta. Porque a grandeza do que sentia ser não permitia a Beatriz que se lamentasse.
"Não sou de baixar os olhos e fixá-los no chão. A minha energia é ar e por isso fixo o olhar nas nuvens. No presente que o amanhã me entrega, embrulhado em recordações que quero esquecer e esquecido do que quero recordar. Retiro o que disse. Mas só a parte «É pena». Talvez um dia consigas, numa só inspiração, captar o que sou e não o que queres que eu seja. Ou talvez não."
(*) frase de Vanessa Quitério / fotografia de João Sousa
- A questão é saber se chegas a ter consciência disso. Ou se achas natural.
- Acho natural o quê? – perguntou ele.
- Pronto. – disse ela – Já percebi que não tens consciência.
- Mas consciência do quê? – insistiu nele.
Ela sacou de um cigarro. Negro, com cheiro a baunilha. Nem se percebia bem que era um cigarro, dada a ausência do cheiro a tabaco.
- Não gosto nada de ter que te explicar isto. És um falso. Apregoas aos sete ventos uma coisa que não és. Ainda não percebi se te queres proteger ou se isso é uma forma de ataque.
Ele olhou-a. Sentia-se transparente.
- E não olhes para mim assim. Nem imaginas como me custa ter-te aqui e dizer-te isto na cara. Custa-me tanto saber que és outro. Nem imaginas como isso me chega a irritar. E afasta-me de ti. Só penso em formas de estar longe de ti. Mil e uma ginásticas.
O cigarro estava a chegar ao fim. Era tarde e a alma – que pesava toneladas - pedia descanso. A dela. Já a dele pairava algures naquele quarto a tentar compreender o sentido daquilo que tinha ouvido.
Era (cada vez mais) tarde. Ela puxou o cobertor e o lençol. Apagou a luz. Ele permaneceu sem resposta, com o olhar fixo na escuridão, que era o reflexo da sua própria falta de luz.
o amor e um estalo? de certeza que é este o título? não falta ali um acento?
o amor É um estalo.
naaaa, deve ser mesmo "e um estalo".
como se o amor não fosse uma estalada nas fuças, por si.
pasteladas
gostamos de pintar o amor de cor de rosa e de outros tons pastel. no amor há cores que ficam bem com os tons das borboletas (que se sentem na barriga) e com as toalhas do piquenique romântica que ela te propõe. há cores que ficam bem com a primeira vez em que os dedos se entrelaçam. há cores que ficam bem com o tom ternurento com que se diz "bom dia" depois de uma noite de partilha dos corpos. há cores que ficam bem com o primeiro jantar a dois.
estaladas
no amor também há estalos. o estalo da realidade, que nem sempre torna o amor possível. é o indivíduo que mora longe demais, é a mulher dele que não sai do retrato, é a filha irritante que não vai à bola contigo. é a incompreensão perante a falta de ternura pela manhã. é a vontade de não dizer sequer bom dia, por não sabermos o que de bom nos vai trazer o dia.
camadas
o amor não é uma coisa ou a outra. é um conjunto de camadas, de cores, de estalos, de risos, de trincas, de suores, de choro, de partilhas, de momentos a sós. e "não há nada mais sexy que dizer a verdade". às vezes, dizemos a verdade à estalada.
a maioria das pessoas foge dos problemas a sete pés. já um filósofo é pessoa para correr na sua direcção para o abraçar e para agradecer a sua existência.
os filósofos gostam de problemas. são bons na sua identificação. acho que temos uma espécie de radar ou de olhar afiado, qual águia que sobrevoa o terreno e rapidamente identifica a sua presa. dito assim, até parece que gostamos de colocar problemas, só para não ajudar os outros. a verdade é que os problemas já lá estão, mas quem com eles vive não consegue a distância suficiente para os ver e para os nomear.
dizer um problema é um alívio. dizer: isto é um problema. é como ter o nome para aquela doença rara que durante meses nos deixa doidos só por não sabermos como se chama. nomear. dizer. identificar.
no princípio era o verbo.
no princípio era o problema.
e depois?
depois de saber dizer o problema há que olhar de novo e procurar a solução.
este meu gosto pelos problemas não faz de mim uma pessoa mais feliz. aproxima-me da verdade.
associo os meus primeiros tempos de internet aos blogs: foram a primeira comunidade online que me cativou.
conheci pessoas novas, aprendi muito e fui explorando traços de escrita. por exemplo, hoje em dia gosto de escrever sem maiúsculas. talvez tenha sido um hábito que o twitter me deu, essa plataforma de microblogging. pois é, seja em tamanho macro ou em tamanho micro, o blogging está presente nos meus canais preferidos para comunicar (o blog e o twitter).
os motivos para participar neste desafio são simples: o facto de poder conhecer outras pessoas da comunidade e o exercício de escrita que me vai proporcionar. para escrever bem é preciso ler e escrever. como trabalho como copywriter e ghostwriter é importante o treino de escrita sobre temas que não me são familiares ou num tom que não é o meu.