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all about little lady bug

ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

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ir, fazer acontecer, filosofar, sonhar, amar, amarfanhar, imaginar, criar, dançar, aprender e escrever - não necessariamente por esta ordem

vamos lá falar do elefante cor de rosa, sim?

elefante rosa.jpg

a educação não é um mundo cor de rosa: tal como a vida, é composto de todas as cores. 

para mim, a educação e a saúde são bases fundamentais para o desenvolvimento das pessoas humanas. neste sentido, considero muito grave que se passeiem elefantes cor de rosa nestas áreas - e que estes sejam ignorados por quem de direito.

desde 2008 que estou ligada ao mundo da educação, pelo facto de estar a trabalhar na área da filosofia para crianças. apenas no presente ano lectivo consegui uma experiência que há muito desejava: filosofia em escolas públicas. já tinha tido experiências num colégio privado - sempre a convite da educadora e sem que o colégio pagasse um tusto pelas minhas oficinas - e tenho andado pelo país a filosofar com a criançada. estive, até, em maputo (e o tanto e muito que gostaria de lá voltar). faltava-me esta experiência regular, diária, com as crianças, para poder observar e sentir uma série de coisas relacionada com a prática.

e para poder sentir, também, o que os outros profissionais da educação e os pais pensam sobre a filosofia no 1º ciclo.

a meio do 2º período apetece-me fazer um balanço desta actividade. e quero falar do elefante cor de rosa que está no meio de nós e do qual ninguém fala. 

 

confesso que achei estranho o facto de ninguém estranhar "isso" dos meninos terem filosofia a partir do 1º ano. muitos sorrisos, "ah e tal acho que isto faz muita falta", ou "eu até faço muito disso nas minhas aulas" e um "o meu filho já faz muitas perguntas em casa". e eu em modo smile and wave, a construir planificações e critérios de avaliação. à espera, ansiosamente, pelo momento em que tudo iria ser questionado - hey, eu sou de filosofia e prezo muito estes momentos. e, como seria de esperar, o momento aconteceu - ta na na na na - no final do 1º período, com as avaliações das aec (actividades de enriquecimento curricular). 

pois. é que houve meninos que costumam ter boas notas nas disciplinas curriculares e que em filosofia não são assim tão brilhantes. houve meninos que não brilham nas aulas curriculares e que têm participações e atitudes muito correctas (e brilhantes) em filosofia. pois é. já viram bem?

caiu o carmo e a trindade. 

pais assustados: "a senhora diz que o meu filho não tem sentido crítico" - alto e pára o baile. digo que o menino não revela pensamento crítico nas minhas aulas - até o pode fazer noutro lado. não sei. só tenho 1h por semana para avaliar isso. 

"a minha filha tem um problema, sabe, não gosta de filosofia" - compreendo. e compreendo que ela não tem que gostar, só tem que colaborar com as regras da comunidade de investigação e revelar algum empenho. eu às vezes também não gosto muito da filosofia, sabe? há dias assim. 

 

"o meu filho teve só um satisfaz, acha que ele tem algum problema?" - não, não acho que haja qualquer problema. temos todo um ano lectivo para trabalhar competências, não concorda?

 

o drama, o horror, a tragédia. 

 

algumas considerações sobre o papel de professor nas aec's. perdão, técnico. para todos os efeitos somos técnicos e não professores. faz sentido: para a entrevista de recrutamento só me pediram o certificado da licenciatura na área - filosofia - e não tive que entregar qualquer comprovativo de trabalho pedagógico, de formação na área da filosofia para crianças, por exemplo. no terreno, essas competências pedagógicas são-nos exigidas - faz sentido. vamos trabalhar com crianças dos 5 aos 10 anos. 

a realidade é a seguinte: é possível haver quem esteja no terreno 

1) sem qualquer experiência prévia com crianças;

2) sem qualquer formação na área da filosofia para crianças;

3) sem licenciatura na área de trabalho (neste caso, a filosofia).

 

é por este motivo que somos técnicos - e não professores (será?). mas depois, na prática, temos que agir como professores: temos que avaliar os meninos, preencher folhas de excel com os critérios e correr, um a um, os cerca de 120 meninos das 6 turmas que estão a nosso cargo (e aqui menciono números meus).

chegam a pedir-nos "planos de recuperação" porque os meninos tiveram "notas baixas" - e aí perdemos (investimos?) meia dúzia de horas  que não chegam a ser pagas. e aqui exigem-nos o papel de professor.

depois voltamos a ser técnicos, quando olhamos para o recibo de ordenado e vemos o valor total deste part time: são cerca de 7 eur e picos à hora.

vamos fazer contas?

- faço 40km por dia, de segunda a sexta, para dar 1h de filosofia. num desses dias, tenho 2h.

- o trajecto demora-me 1h (ida e volta).

 - tenho um plafond de 400 cópias por ano para gerir, numa das escolas, onde tenho 4 turmas com uma média de 23 alunos em sala.

 

feitas as contas: acho que o ordenado não paga efectivamente as horas de trabalho e o material investido - já para não falar da gasolina. 

 

como professora que sou, tenho que planear as aulas, uma a uma. e acreditem: são todas diferentes. tenho que pensar nos materiais para ter em sala e tratar das cópias por minha conta. comprei um apagador, para evitar limpar um dos quadros com um pano nojento, amarelo, que me deixa o quadro ensopado. fiz uma "vaquinha filosófica" e comprei livros para servir de manual da aula e até cadernos que se transformaram em diários da filosofia. 

 

quando falto - e até justifico a falta e aviso atempadamente - descontam-me o valor pelas horas em que estive ausente. 

pedem-nos que não faltem - mais pelo facto de depois isso provocar constrangimentos "quem fica com a turma naquele tempo?" - do que propriamente pelo cumprimento da "minha" planificação ou dos objectivos que tracei para cada turma. 

 

temos 1h para gerir em sala, mas temos que ir buscar os meninos em fila e no final entregá-los, em fila e garantir que levam a sua mochila, têm os casacos vestidos e não se esquecem das lancheiras. óbvio que não temos 1h útil de trabalho, pois querem os meninos prontos para os pais às 17h30m - logo, temos que terminar pelas 17h25. se termino antes e deixo os meninos irem para o recreio ou fazer fila, as assistentes operacionais - que não estão preparadas para olhar por eles uns minutos antes do devido - mandam os meninos de volta para a sala. 

 

sou técnica, mas às vezes sou professora. e vice versa. é uma vida bipolar, esta. trifásica, pois para os meninos sou apenas joana. 

 

o balanço é negativo - financeiramente falando. 

o balanço é SUPER POSITIVO - quando falo do relacionamento que tenho com as crianças, dos trabalhos que temos vindo a fazer e da forma como evoluí em termos de facilitadora (é assim que se chama à pessoa que conduz as oficinas de filosofia - para crianças). tenho experimentado exercícios e vivido momentos privilegiados com os meus alunos. os abraços são uma parte integrante deste processo.

 

 

voltava a assinar contrato? sim, sem dúvida. sempre disponível para aquilo que posso dar e receber do meu trabalho com a criançada; completamente indisponível para "aturar"os adultos chatos e inflexíveis à minha volta. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"não sei o que podes fazer neste projecto. mas tens que fazer parte disto!"

gerador 3 fotos.jpg

foi mais ou menos assim que o Gerador me foi apresentado, pelo senhor que está ali, na fotografia, a conversar comigo, enquanto mira o infinito.

nessa mesma hora nascia o café central, a minha crónica na revista Gerador, onde o desafio é juntar duas pessoas (humanas) à conversa, tendo por companhia o café ou o chá.

 

e tem sido uma aventura daquelas. obrigada, Pedro aka editor fofinho.

e a verdade é que a merda é coisa que faz parte de vida

a A. de 6 anos pediu-me para ir à casa de banho. deixei ir. regressou e veio ter comigo, com um ar feliz.
- professora, professora. fiz diarreia.
- ah sim? e estás bem disposta?
- estou. olha era assim (exemplifica o tamanho com as mãos). não queres ir ver?

a custo, disse-lhe que não. e dei-lhe uns dodots, pedi-lhe que voltasse à casa de banho para se certificar que o processo de limpeza tinha sido devidamente executado. e ela foi, super feliz.

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